quinta-feira, 4 de maio de 2017

Nova onda de investimentos chineses deve trazer US$ 20 bi para o Brasil

19/03/2017 - Estadão

O Brasil em crise virou a grande oportunidade para os chineses ampliarem seus negócios no País. Sem medo de gastar e com forte apetite para o risco, eles planejam desembolsar neste ano mais US$ 20 bilhões na compra de ativos brasileiros – volume 68% superior ao de 2016, segundo a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China. O movimento tem sido tão forte que o País se transformou no segundo destino de investimentos chinês na área de infraestrutura no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Na lista de companhias que planejam desembarcar no País, de olho especialmente nos setores de energia, transportes e agronegócio, há nomes ainda desconhecidos dos brasileiros, como China Southern Power Grid, Huaneng, Huadian, Shanghai Eletric, SPIC e Guodian. “Há dezenas de empresas chinesas que passaram a olhar o País como oportunidade de investimentos e estão há meses prospectando o mercado brasileiro”, diz Charles Tang, presidente da CCIBC.

Enquanto essas companhias não chegam, outras chinesas estão mais avançadas na estratégia de expandir os negócios. A State Grid, por exemplo, liderou os investimentos no ano passado, com a compra da CPFL; a China Three Gorges arrematou hidrelétricas que pertenciam à estatal Cesp e comprou ativos da Duke Energy; a China Communications Construction Company (CCCC) adquiriu a construtora Concremat; e a Pengxin comprou participação na empresa agrícola Fiagril e na Belagrícola.

Segundo levantamento das consultorias AT Kearney e Dealogic, de 2015 para cá, os chineses compraram 21 empresas brasileiras, que somaram US$ 21 bilhões. “Hoje, o Brasil é um país que está barato, por conta do cenário político e econômico. E isso é visto como uma grande oportunidade pelo investidor chinês”, afirma o diretor para a área de infraestrutura da A.T. Kearney, Cláudio Gonçalves.

O atual movimento dos asiáticos no Brasil tem sido considerado como a terceira onda de investimentos chineses. Na primeira, vieram grandes multinacionais, como a Baosteel, de olho no setor de mineração e aço. A empresa chegou a fazer parceria com a Vale para construir duas siderúrgicas no País, mas o projeto não prosperou. Em 2011, comprou uma pequena participação na Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, que aposta na exploração de nióbio.

Na segunda onda de investimento chinês, apareceram companhias que tinham pouca ou quase nenhuma experiência no mercado externo, afirma o advogado do escritório Demarest, Mário Nogueira. Ele explica que, nesse segundo movimento, muitas empresas – incluindo o setor automobilístico – não se deram bem no Brasil, por não terem recebido orientação adequada de como funcionava o mercado nacional. “Dessa leva, algumas quebraram e outras tentam até hoje se desfazer de ativos.” A onda atual também inclui empresas inexperientes no mercado internacional, mas gigantes na China, com muito dinheiro para gastar. E, desta vez, as companhias têm se cercado de assessores financeiros e jurídicos.

“Tem cliente que montou escritório de representação e está há três anos estudando o mercado brasileiro. De tanto rodarem em busca de negócios, já conhecem mais o País do que eu”, afirma Nogueira. Por ora, os escândalos revelados pela Operação Lava Jato envolvendo as maiores empreiteiras do Brasil estão longe de serem vistos como fator de preocupação econômica ou de instabilidade política pelos investidores chineses. Pelo contrário, têm ajudado, já que os preços dos ativos caíram.

Futuro. Nos próximos meses, vários negócios em andamento poderão ser concluídos. É o caso da Shanghai Electric, que estuda assumir projetos de transmissão da Eletrosul, cujos investimentos somam R$ 3,3 bilhões; a SPIC está na disputa pela compra da Hidrelétrica Santo Antônio; e a CCCC tem vários ativos na mira, de construtoras a ferrovias. Outra que fez aquisições em 2016 e não deve parar por aí é a Pengxin. A empresa negocia a compra de parte do banco Indusval, apurou o Estado. Fontes afirmam que há ainda planos da Pengxin levantar um fundo de US$ 1 bilhão para investir em agricultura. Procurados, o banco não comentou o assunto e a Pengxin não retornou os pedidos de entrevista.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

China lidera ranking de aquisições no Brasil

24/04/2017 - Valor Econômico

A China veio decidida às compras no Brasil. Não só aumentou o valor total em aquisições no país como lidera o movimento dos compradores. No acumulado do ano até 17 de abril, fusões e aquisições chinesas no país somaram US$ 5,67 bilhões, segundo a Dealogic, consultoria baseada em Londres. O valor põe os chineses à frente dentre investidores estrangeiros no Brasil nesse tipo de operação.

A China representou 37,5% do total de aquisições no Brasil no acumulado até 17 de abril e ficou à frente até mesmo das compras com capital brasileiro, que somaram em igual período US$ 4,23 bilhões, com fatia de 28% dos investimentos dessa natureza, segundo os dados da Dealogic. Entre os estrangeiros, a China foi seguida de Argentina e Holanda, com aquisições de US$ 1,6 bilhão (10,5% do total) e US$ 1,1 bilhão (7,2%), respectivamente.

Os US$ 5,67 bilhões do acumulado até 17 de abril são praticamente metade das aquisições de todo o ano de 2016, quando o total das operações chinesas no Brasil chegou a US$ 11,92 bilhões, valor que já foi mais que o dobro dos US$ 4,9 bilhões em aquisições no ano anterior, segundo a Dealogic.

A China também liderou as compras no ano passado entre os estrangeiros e praticamente empatou com o Brasil em valor de aquisições no país. Dentre os investidores estrangeiros em operações dessa natureza no Brasil, os chineses ficaram à frente dos EUA -13,2% do total, com US$ 6,4 bilhões -, que quase empataram com os aportes canadenses - US$ 6,3 bilhões, ou 12,9% do total.

O ritmo mais forte de aquisições no início do ano acontece paralelamente à elevação do superávit para o Brasil no comércio com a China. Com a elevação de exportações puxada por minério de ferro e petróleo, combinada ao ritmo ainda lento de recuperação de importações, o saldo comercial a favor do Brasil subiu de US$ 1 bilhão no primeiro trimestre de 2016 para US$ 5,5 bilhões em igual período deste ano. Os dados de balança são do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

Welber Barral, consultor da Barral M Jorge, lembra que os números de aquisição da China no Brasil seguem a tendência de crescimento do investimento chinês no mundo. Os dados da Dealogic apontam que as aquisições estrangeiras da China totalizaram US$ 225,6 bilhões em 2016, divididos em 791 operações. No ano anterior foram US$ 100,6 bilhões em 595 fusões e aquisições.

A evolução dos investimentos externos diretos da China também dá um bom indicador de como o país asiático se tornou um investidor importante, destaca Luís Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização (Sobeet). A participação da China nos investimentos externos diretos globais cresceu de 0,1% em 2000 para 7,2% em 2015. "Para o Brasil é importante conquistar uma parte desse crescente investimento chinês", afirma.

Lima destaca que, segundo os números da Dealogic, o Brasil recupera sua fatia como destino das aquisições estrangeiras chinesas. Em 2010, o Brasil era alvo 25% do valor total dessas compras, participação que caiu para 14% em 2011. A queda se acentuou nos anos seguintes e chegou a praticamente zero em 2014. Lima lembra que a recuperação iniciou-se em 2015 e 2016 quando o Brasil foi destino de 5% do total das aquisições estrangeiras da China. Nos números parciais deste ano, esse percentual já chega aos 15%.

Essa participação na fatia das aquisições chinesas é especialmente importante num momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, sinaliza para uma política para estimular a repatriação de recursos pelas companhias americanas, avalia Lima. Se isso for realmente aplicado, diz ele, o investimento externo direto líquido dos EUA, país importante no cenário global de aquisições, deve ser pressionado para baixo.

Barral diz, porém, que algumas ponderações devem ser feitas. Ele destaca que as aquisições chinesas no Brasil no ano passado e também no início deste ano se concentraram em poucos projetos de infraestrutura. No ano passado, por exemplo, dos US$ 11,92 bilhões investidos pelos chineses, mais de 70% - US$ 8,61 bilhões - foram aplicados pela State Grid na CPFL Energia.

Este ano, em janeiro, a companhia chinesa completou a operação com outros US$ 3,72 bilhões na mesma empresa. No mesmo período, a State Grid também respondeu por outro investimento de US$ 938,4 milhões na CPFL Energias Renováveis.

Os números mostram que em termos de valores a China tem mirado predominantemente grandes aquisições nas áreas de energia elétrica e mineração, diz Lima. No ano passado, o US$ 1,69 bilhão da China Molybdenum representou a segunda maior aquisição da China no Brasil e teve como destino a Anglo American Fosfatos Brasil e a Anglo American Niobio Brasil.

O desempenho não acontece por acaso, diz Barral. Nos emergentes, as compras dos chineses têm mirado ativos em infraestrutura e relacionados a riquezas naturais. "É uma decisão estratégica muita clara no Brasil e também no continente africano. Com certeza não estão queimando dinheiro." Para ele, a alta participação da China nesse tipo de aquisição reflete seu grande poder de compra. "Eles têm maior capacidade de enfrentar riscos regulatórios do que os grandes fundos de investimento formados por grandes empresas."

É possível, diz Barral, que a participação chinesa nas aquisições no Brasil se mantenha alta, já que há expectativa de novas concessões na área de infraestrutura. "Por isso é interessante que o Brasil ofereça maior segurança jurídica nesses setores", diz. Isso, avalia ele, possibilita a diversificação de investidores e a menor dependência de uma só origem de recursos.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Chineses miram aquisição de construtoras e licitações de ferrovias no Brasil

05/04/2017 - Extra

Empresas chinesas têm interesse em comprar grandes construtoras e participar de licitações de ferrovias no Brasil para impulsionar sua presença em obras de infraestrutura locais, aproveitando o vácuo deixado por empreiteiras brasileiras que enfrentam dificuldades financeiras e acusações de corrupção, disse à Reuters o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China.

O presidente da câmara, Charles Tang, afirmou que as empresas chinesas que miram o mercado local para oferecer seus serviços em construção podem garantir também financiamentos para os empreendimentos, o que seria um forte diferencial competitivo diante da maior recessão em décadas, que tem tornado escasso e caro o crédito no Brasil. O setor de construção também foi abalado nos últimos anos pela devassa promovida pela operação Lava Jato sobre grandes empreiteiras do país.

"Eles (chineses) querem construir e financiar a construção. Só que como eles não têm construtoras no Brasil, eles têm que subcontratar ou comprar construtoras aqui.... várias empresas estão pedindo para que eu as ajude a comprar empreiteiras grandes e que não estejam na Lava Jato", disse Tang, sem citar nomes.

Ele afirmou que também existe um enorme interesse dos orientais por projetos de ferrovias que o governo federal pretende licitar neste ano, como o trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) entre Ilhéus (BA) e Caetité (BA) e a Ferrogrão, entre Mato Grosso e Pará.

A Fiol tem investimento estimado de 1 bilhão de reais, enquanto a Ferrogrão deve consumir mais de 12,6 bilhões de reais.

"Os chineses sabem que no passado eles nunca poderiam entrar no Brasil nesses projetos de infraestrutura, estava tudo dominado pelas empresas que hoje estão na Lava Jato. Hoje, além de poderem entrar, está tudo barato, está todo mundo sem capital, as obras estão paradas. Logicamente isso atrai eles", disse Tang.

Ele comentou que chineses teriam interesse também em empreendimentos de porte ainda maior, caso estes saiam do papel, como o trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro e a ferrovia transoceânica, que ligaria o Brasil ao Oceano Pacífico cruzando a Cordilheira dos Andes.

Segundo Tang, empresas como a China Railway Engineering Corporation (CREC10) e a China Communications Construction Company (CCCC) poderiam participar desses empreendimentos ferroviários no Brasil.

"Para a China, nada disso é impossível", disse. "Para todas ferrovias viáveis, a China tem interesse", adicionou.

Presença constante no Brasil desde os anos 1970, Tang trilhou carreira em bancos e no mercado financeiro, onde chegou a ser colega de trabalho do atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

AGRICULTURA E TERRAS

O presidente da Câmara Brasil China disse que há grande apetite de investidores orientais pela compra de terras no Brasil para produção agrícola, o que hoje é travado por um parecer de 2010 da Advocacia-Geral da União (AGU), que veta essas aquisições por estrangeiros.

O governo Michel Temer tem falado em rever essa regra para atrair investimentos, mas eventualmente com algumas limitações.

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, já afirmou que as reformas na legislação iriam procurar apoiar o investimento estrangeiro em produtos agrícolas com ciclos mais longos de produção como laranjas, florestas para a produção de celulose, cana-de-açúcar e café. Restrições se aplicariam à soja, milho e outras safras que são colhidas no mesmo ano em que são plantadas.

Tang teme que esse tipo de diferenciação possa frear o interesse oriental.

"Se houver limitação para o uso das terras em lavouras de curta duração, como a soja, aí perde 70 por cento do interesse chinês", disse.

Segundo ele, os chineses poderiam já ter investido cerca de 90 bilhões de dólares no Brasil se fossem liberados para comprar terras.

Ele avalia, no entanto, que mesmo a continuidade do veto às compras de terras não afasta o interesse dos chineses pelo agronegócio brasileiro, onde empresas como a gigante de commodities agrícolas Cofco e o conglomerado Shanghai Pengxin Group devem continuar em caminho de expansão.

"Eles têm muito acesso a capital e mais de 1,3 bilhão de bocas para alimentar", disse Tang, em referência à população chinesa.

ENERGIA

Outra área na mira dos chineses é a de energia, onde estão no radar tanto a expansão em petróleo quanto em negócios no setor elétrico.

Segundo Tang, as chinesas CNPC e CNOOC, que são sócias da Petrobras na área de Libra, no pré-sal, devem manter o interesse em crescer no país, assim como outras petroleiras chinesas, como SinoChem e Sinopec.

Na visão do executivo, essas empresas devem participar das próximas licitações de áreas de petróleo, bem como prospectar outros negócios.

"Inclusive, se a Petrobras quiser vender a participação dela em Libra, provavelmente os compradores seriam os chineses", afirmou.

Em eletricidade, as gigantes State Grid e China Three Gorges já têm forte presença no Brasil, após aquisições bilionárias nos últimos anos, e a Shanghai Electric avalia atualmente empreendimentos da Eletrosul, da Eletrobras, que devem demandar cerca de 3 bilhões de reais em investimentos.

"Eles estão testando as águas", disse Tang, que vê uma possível nova onda de companhias adentrando o setor. "Todo mundo conhece esses três nomes, mas ninguém ouviu falar de mais seis gigantes chineses que querem vir, mas não vieram ainda."

Ele citou como possíveis interessadas no setor elétrico do Brasil empresas como Huaneng, Huadian, Guodian e CGGC, além da transmissora Southern Electric.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Faturamento de empresas de transporte cai 60% no ano, revela pesquisa da CNT

29/11/2016 - Valor Econômico

As diferentes modalidades de transporte no Brasil têm sofrido com os efeitos da crise da economia do país. O levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgado ontem, indicou que a maioria das empresas do setor tiveram uma diminuição de 60,1% da receita bruta e redução de 58,8% do número total de viagens ao longo do ano de 2016.

Os dados da pesquisa ainda indicam que houve aumento do custo operacional para 74,6% das empresas, o que veio a comprometer o nível de produtividade.

A Sondagem Expectativas Econômicas do Transportador 2016 entrevistou 795 transportadores de todo o país que atuam nos modais rodoviário, ferroviário de cargas, metroferroviário, urbano de passageiros por ônibus, aquaviário e aéreo.

Para a CNT, a instabilidade econômica e política teve papel decisivo na redução dos deslocamentos, diminuindo receita e forçando a redução das atividades do setor. A maioria dos transportadores (90,7%) considera que a crise política também afetou negativamente o mercado. Parte das empresas do setor (37,4%) informaram que tiveram que reduzir o número de veículos em operação em 2016.

Mesmo sofrendo os efeitos da crise, 53,5% dos transportadores aumentaram a confiança na gestão econômica do governo federal e 60,5% concordam com as medidas fiscais anunciadas. A Sondagem mostrou também que 49,3% dos empresários acreditam que a retomada do crescimento na economia do país só será percebida em 2018.

Para a CNT, a atual situação do país levou as empresas a suspenderem a contratação de novos funcionários e fazer a aquisição de novos veículos. O acesso ao crédito foi indicado como a maior dificuldade por 77% dos entrevistados. A facilidade em obter financiamento é indicada como forma de incentivar a retomada do processo de investimento na renovação e modernização da frota. A entidade patronal aproveitou a divulgação da pesquisa para cobrar investimentos em infraestrutura.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Poucos meses após Revolução Cubana, Fidel faz comício para multidão no Rio



Em 1959, premier é recebido por JK, Jango, Lott e Lacerda e participa de eventos na ABI e UNE. Líder dá autógrafo ao GLOBO, publicado em desenho de Epstein na 1ª página

Visita ao Rio. Na primeira página do GLOBO aparecem a foto do comício de Fidel Castro na Esplanada do Castelo, no Centro, e a dedicatória ao jornal escrita pelo líder cubano no desenho feito por Epstein

Dia 6 de maio de 1959. Sob aplausos, Fidel Castro discursou para o povo durante duas horas e dez minutos em comício realizado na Esplanada do Castelo, no Centro do Rio de Janeiro, então capital da República. Em ato organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), o líder revolucionário cubano explicou, de um palanque, as razões que inspiraram o movimento que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista em 1º de janeiro daquele ano.

A iniciativa fazia parte de um giro de 25 dias por países das Américas, incluindo os Estados Unidos, para esclarecer os objetivos e os planos da vitoriosa Revolução Cubana, além de atrair apoios de governos. Por sinal, um mês antes, em abril de 1959, antes de se tornar o inimigo número 1 da Casa Branca, Fidel Castro foi recebido como herói nos EUA, onde realizou comício para cerca de 35 mil pessoas no Central Park em Nova York. Em Washington, o jovem advogado barbudo que comandou o movimento popular que tirou do poder Batista posou para fotos em frente ao Capitólio. Ele também foi recebido por Richard Nixon, então vice-presidente no governo de Eisenhower, para uma reunião a portas fechadas.

Antes de chegar ao Rio, Fidel Castro e seus “companheiros barbudos” estiveram em São Paulo. Um acidente na pista do Aeroporto do Galeão, no Rio, fez o líder cubano mudar o seu programa de viagem antes desembarcar na capital do Brasil. Com isso, na noite do dia 30 de abril de 1959, o Bristol Britannia da Cuban Airlines com Fidel a bordo aterrissou no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Na cidade, ele deu entrevistas e foi convidado pelo presidente Juscelino Kubitschek a conhecer Brasília, a futura capital. De lá, seguiria direto para encontro em Buenos, retornando depois para o Rio de Janeiro.

Com o título “Fidel Castro revive no Rio os cansaços de Sierra Maestra”, O GLOBO noticiou na primeira página da edição do dia 7 de maio a visita do então primeiro-ministro de Cuba e sua comitiva de 50 pessoas. O “atribulado dia” do premier na cidade incluiu visita ao Batalhão de Guardas, onde se encontrou com o ministro da Guerra, marechal Teixeira Lott, e almoço com o presidente Juscelino Kubitschek e o chanceler Negrão de Lima, no Palácio Laranjeiras, em que foi servido vatapá. Participaram da recepção o vice-presidente João Goulart, os senadores Filinto Müller e Benedito Valadares, o embaixador do Brasil em Cuba, Vasco Leitão da Cunha, o embaixador cubano no país, Rafael Garcia Bárcena, o deputado Cid Carvalho, o ministro Aluísio Napoleão, Herbert Moses e Antônio Olinto, entre outros.

Na ocasião, JK elogiou o discurso de Fidel no Comitê dos 21, o que “deu um impulso notável à Operação Pan-Americana”. Ao final do almoço, Fidel também fez seus elogios, ao vatapá, e ofereceu um charuto Havana ao presidente brasileiro. Segundo reportagem do jornal, mesmo sem jeito, Juscelino deu algumas tragadas, confessando que era a primeira vez que fumava charuto.

Fidel também manteve reuniões com os estudantes na sede da UNE, no Rio, com outros políticos, entre eles os deputados Carlos Lacerda, San Tiago Dantas, Magalhães Pinto e Neiva Moreira e o prefeito Ademar de Barros, representantes da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e artistas. Depois da maratona de eventos na cidade, o primeiro-ministro de Cuba foi para o hotel Excelsior, em Copacabana, onde ficou com a sua comitiva. Lá recebeu artistas do rádio e da TV. Entre eles Ivon Curi e Angela Maria, que cantaram músicas populares brasileiras. O “comandante” gostou do “sarau” e pediu bis para ouvir de novo as canções.

Do próprio punho, o líder da Revolução Cubana também deu um autógrafo para O GLOBO em desenho feito pelo ilustrador Epstein. O desenho, com a assinatura de Fidel, foi publicado como a imagem principal da primeira página do jornal, ao lado da foto do comício no Centro do Rio, na edição do dia 7 de maio de 1959. “Un saludo al periódico O GLOBO en ocasión de nuestra visita a este extraordinario pais”, escreveu Fidel.


Leia mais sobre esse assunto em http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/poucos-meses-apos-revolucao-cubana-fidel-faz-comicio-para-multidao-no-rio-20551384#ixzz4RLz3kgAQ 
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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Em visita de Temer, chineses anunciam aportes de cerca de R$ 15 bi no Brasil

02/09/2016 - O Estado de S. Paulo

A atração de investimentos chineses para projetos de infraestrutura no Brasil é um dos pontos centrais da visita que o presidente Michel Temer iniciou hoje à China. Mas o maior objetivo de Temer com a viagem – no domingo, ele participa da reunião do G-20 –, é passar a mensagem de que o período de instabilidade política no Brasil foi superado e que seu governo está tomando as medidas necessárias para ajustar a economia e dar segurança aos que coloquem capital em grandes projetos de infraestrutura. 

Em evento que reuniu cerca de 100 empresários brasileiros e 250 chineses em Xangai, alguns investimentos já foram anunciados. A CBSteel oficializou um acordo de US$ 3 bilhões (R$ 9,75 bilhões) para siderurgia no Maranhão. A China Communications Construction Company (CCCC) informou um aporte de US$ 460 milhões (R$ 1,5 bilhão) em um terminal multicargas em São Luís (MA). A Hunan Dakang disse que investirá US$ 1 bilhão (R$ 3,25 bilhões) em agricultura no Brasil. E a Embraer fechou a venda de pelo menos 4 aviões para dois grupos chineses. 

“Agora, o Brasil sabe onde quer chegar”, disse o ministro dos Transportes, Maurício Quintella, no evento com os empresários. Ele afirmou que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff “restabeleceu a estabilidade política” no País. Mas reconheceu que o País continua mergulhado em uma grave crise financeira, que restringe sua capacidade de investimentos em infraestrutura. Esse cenário, ressaltou, cria oportunidades para empresas estrangeiras em busca de projetos de longo prazo. 

Apesar da referência de Quintella à estabilidade política, Temer desembarcou em Xangai sob o impacto de mais uma crise em sua base de apoio no Congresso, sem a qual não conseguirá aprovar o ajuste fiscal nem o novo modelo de concessões, dois dos principais elementos de sedução de potenciais investidores estrangeiros. A manobra de parcela do PMDB para livrar Dilma Rousseff da perda dos direitos políticos irritou o PSDB e abalou o apoio do governo entre os parlamentares. 

Principal articulador do acordo pró-Dilma, o presidente do Senado, Renan Calheiros, acompanha Temer na viagem à China. Também estão na comitiva os ministros José Serra (Relações Exteriores), Henrique Meirelles (Fazenda) e Blairo Maggi (Agricultura), além de Quintella, dos Transportes. 

Encontro. Depois de participar de seminário com os empresários em Xangai, Temer foi para a Hangzhou, onde se reuniria com o líder chinês Xi Jinping às 16h50 de sexta-feira (5h50, horário de Brasília), em sua primeira reunião oficial com um chefe de Estado estrangeiro. 

Segundo uma fonte do governo brasileiro, a reunião serviria para que os dois líderes discutissem a “direção” que pretendem dar ao relacionamento bilateral. 



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Rodovias entram no radar dos chineses

12/01/2016 - Valor Econômico

Depois da ofensiva no setor energético, com a compra de usinas hidrelétricas e a entrada no pré-sal, os chineses se preparam para estrear na área de rodovias. Eles estão em negociações adiantadas para adquirir a BR-153, no trecho entre Anápolis (GO) e Palmas (TO), concedido à Galvão Engenharia e que jamais teve iniciadas as obras de duplicação.

Um desfecho do negócio pode ocorrer em 90 dias. Esse foi o prazo dado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para obter uma solução para as obras na rodovia. Em recuperação judicial e envolvida na Operação Lava-Jato, a Galvão arrematou a concessão da BR-153 e assinou contrato em setembro de 2014, mas praticamente abandonou os canteiros no trecho privatizado.

A agência deu um ultimato à empreiteira, que terá que escolher entre a conclusão da primeira fase das obras e a venda do controle da concessão. A ANTT já emitiu um parecer, alertando para o risco elevado de insolvência da concessionária, sem caixa suficiente para arcar com suas obrigações contratuais. Uma reunião entre a Galvão, a agência e os investidores chineses estava prevista para a semana passada, mas foi cancelada. O contrato prevê investimentos de R$ 2,7 bilhões nos cinco primeiros anos - período em que a rodovia deverá ser totalmente duplicada.

De acordo com fontes do governo e da iniciativa privada, os chineses também planejam entrar na disputa pela Rodovia do Frango, corredor logístico que atravessa uma região produtora de carnes no Paraná e em Santa Catarina. Esse trecho deveria ter sido leiloado no ano passado, mas esbarrou em questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU) e provavelmente será licitado no primeiro semestre.

O olhar mais atento de Pequim para as rodovias ocorre em função do atraso nos leilões de ferrovias. A estatal CRCC, sigla da China Railway Construction Company, firmou parceria com a Camargo Corrêa para disputar a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico). O projeto liga os municípios de Campinorte (GO) e Lucas do Rio Verde (MT).

Sem perspectivas concretas de avanço na Fico, que nunca foi colocada em leilão, os chineses aproveitaram uma reunião recente com autoridades brasileiras para deixar claro que escolheram um novo alvo para entrar no segmento: a ferrovia Rio-Vitória.

Trata-se de um traçado de 577 quilômetros, orçado em mais de R$ 7 bilhões, conectando terminais portuários nas imediações das duas capitais. A China, no entanto, demonstrou preferência pelo modelo em que a estatal Valec adquire integralmente a futura capacidade de transporte da ferrovia e revende esse direito no mercado. Na prática, isso garante demanda aos investidores. Diante da resistência do mercado, o governo havia desistido desse modelo, mas nunca revogou os atos legais que o sustentavam.

Desde que a presidente Dilma Rousseff se reuniu, em maio do ano passado, com o primeiro-ministro chinês, Li Kiqiang, vários investimentos importantes foram anunciados pelos asiáticos. Em novembro, o grupo NHA oficializou a aquisição de 23,7% da companhia aérea Azul, em uma transação de R$ 1,7 bilhão.

Na mesma semana, a estatal China Three Gorges (CTG) protagonizou o leilão de hidrelétricas, ao arrematar as usinas de Jupiá e Ilha Solteira, ambas no Estado de São Paulo, por R$ 13,8 bilhões. Antes, a mesma empresa havia adquirido o controle das hidrelétricas de Salto (GO) e Garibaldi (SC), negócios que movimentaram cerca de R$ 1,75 bilhão.

Além da aquisição de ativos, a China tem demonstrado apetite pela área financeira. Em 2014, os empréstimos chineses para a América Latina somaram US$ 22,1 bilhões, cifra superior à desembolsada por fontes "tradicionais", como Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Para o Brasil, foram destinados US$ 8,6 bilhões naquele ano, segundo o centro de estudos Diálogo Interamericano, de Washington.

Entre as operações mais relevantes está a captação de US$ 7 bilhões pela Petrobras, que enfrenta dificuldade para acessar os demais mercados internacionais desde que perdeu o grau de investimento pela Moody's, no início de 2015. Uma parte da operação veio do Banco de Desenvolvimento da China (BDC), enquanto o restante ficou a cargo do Industrial and Commercial Bank of China Leasing (ICBC).

Embora a Petrobras não tenha divulgado os termos do acordo, a aproximação com a China resultou em aumento das exportações de petróleo do Brasil para o país asiático. Os desembarques do produto somaram US$ 4,1 bilhões em 2015, alta de 20% em relação ao exercício anterior. Com isso, os chineses desbancaram os Estados Unidos como principal destino do petróleo brasileiro.

Além da estatal, grupos privados também firmaram protocolos de entendimento para operações de crédito com bancos chineses, como a operadora de telefonia Oi (US$ 1,2 bilhão, com o BDC) e a Vale (US$ 3 bilhões, com o ICBC).

Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), Lívio Ribeiro recomenda cautela com esses empréstimos. "Parece ótimo pedir dinheiro para a China, mas é importante saber qual é o retorno esperado, qual a contrapartida", diz. Os investidores do país só vão se interessar por obras em que a taxa de retorno seja alta - e aí o potencial de atração de qualquer investidor é alto -, ou na qual tenham alguma contrapartida, seja com uso de fornecedores chineses ou venda de produtos, completa.

Ribeiro lembra que os financiamentos concedidos para a Argentina, por exemplo, estavam atrelados a algumas condições pré-estabelecidas, como a aquisição de produtos chineses.

Acordos têm avanço lento, mas fundo pode sair do papel

Os acordos firmados há oito meses pela presidente Dilma Rousseff e pelo primeiro-ministro da China, Li Keqiang, estão ganhando forma lentamente e podem render seus primeiros frutos nos próximos meses. Um dos pontos de maior avanço é o fundo bilateral para desenvolvimento da capacidade produtiva.

Voltado a projetos industriais e de infraestrutura, ele já teve uma empresa criada em Pequim para geri-lo - o Claifund (China Latin American Industrial Cooperation Investment Fund). Os chineses enviaram a Brasília uma minuta de constituição do fundo e se comprometeram a retirar US$ 15 bilhões de suas reservas internacionais para capitalizá-lo. Eles sugeriram usar o Banco do Brasil como parceiro. Um dos desafios é encontrar uma solução para o risco cambial envolvido nos financiamentos concedidos no país.

O governo brasileiro havia se comprometido a fazer um aporte de US$ 5 bilhões. Diante das restrições orçamentárias, uma das possibilidades cogitadas é recorrer ao dinheiro devolvido aos bancos públicos como regularização das "pedaladas" fiscais, mas o aporte não precisa ser desembolsado de uma única vez.

Nas conversas com as autoridades brasileiras, ficou claro que o objetivo dos chineses é buscar retorno ao capital investido, e não vincular seus empréstimos ao fornecimento de equipamentos. Ou seja, uma ferrovia não precisaria ter locomotivas ou trilhos provenientes da Ásia, nem uma usina hidrelétrica ter turbinas "made in China" para contar com recursos do novo fundo.

"Eles têm demonstrado muito interesse nas tratativas e nos garantiram ter reservado recursos para o fundo", diz Claudio Puty, ex-secretário de Assuntos Internacionais no Ministério do Planejamento, que chefiou uma missão negociadora a Pequim em outubro. "Nos parece uma oportunidade única e que não deve ser desperdiçada", afirma Puty, atual secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Previdência Social.

Os dois países começam a pensar em projetos potenciais para receber financiamento. Um dos candidatos potenciais é a segunda linha de transmissão que escoará a energia produzida pela hidrelétrica de Belo Monte, cuja concessão foi arrematada pela chinesa State Grid no ano passado, com investimentos previstos de R$ 7 bilhões até 2019.

A ferrovia Bioceânica, megaprojeto que pretende ligar Brasil e Peru pelos trilhos, vem tendo seus estudos tocados por um grupo de engenheiros chineses instalados em Brasília. Eles já fizeram diversas viagens, inclusive sobrevoos, às alternativas de traçado do empreendimento. Uma das hipóteses aventadas agora é que o ponto final da ferrovia seja o Porto Sul da Bahia, em Ilhéus, que também pode receber investidores chineses para sua construção.

Os estudos de viabilidade devem ser concluídos no fim do primeiro semestre e contemplam três opções de saída no Pacífico: os portos de Bayóvar (norte do Peru), Callao (centro) e Ilo (ao sul). No Brasil, duas alternativas de saída eram estudadas: Assis Brasil e Cruzeiro do Sul, no Acre. A primeira esbarra em dificuldades topográficas do lado peruano; a segunda é complicada do ponto de vista ambiental e cruza terras indígenas.

Já as conversas entre Caixa Econômica Federal e ICBC para constituição de um fundo de US$ 50 bilhões estão mais lentas e há dúvidas do lado brasileiro sobre a disposição do banco chinês em realmente tirá-lo do papel.