sábado, 13 de junho de 2015

Além de "Tropa de Elite", filmes brasileiros recentes ajudam a explicar a escalada da violência no Rio


30/11/2010 - Uol

ALESSANDRO GIANNINI
Editor de UOL Cinema

Cena do filme ''Cidade de Deus'', de Fernando Meirelles, que se passa em favela do Rio
Cena do filme ''Cidade de Deus'', de Fernando Meirelles, que se passa em favela do Rio

Uma boa olhada na filmografia brasileira recente ajuda a entender os enfrentamentos entre forças policiais, as Forças Armadas e os traficantes no Rio de Janeiro. Tomando-se como referência a Retomada, a partir de 1991, quando a produção de cinema no país volta a crescer após o desmanche da Embrafilme pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, a favela, o morro ou a comunidade - não importa a nomenclatura - parece voltar ao imaginário cinematográfico, depois de anos relegada a um nada honroso segundo plano. E volta em grande estilo, primeiro com "Notícias de Uma Guerra Particular" (1999), de João Moreira Salles, e, depois, quando Fernando Meirelles decide abraçar a adaptação do romance autobiográfico de Paulo Lima, "Cidade de Deus" (2002).

O filme, hoje referência no Brasil e no mundo, narra de forma épica a gênese e o desenvolvimento da mais emblemática favela do Rio. Com roteiro de Bráulio Mantovani, indicado ao Oscar por esse trabalho, acompanha as biografias de vários garotos da comunidade, os caminhos tomados por cada um deles e o resultado de suas opções. O olhar privilegiado é de um jovem com um pé na comunidade, onde nasceu, e outro no asfalto, onde estuda. Ele mostra como, ao logo de anos, estabeleceram-se condições para a instalação e o crescimento do tráfico de drogas, a criação de um poder paralelo dos traficantes, a escalada da violência pela disputa de pontos de venda e uma série de outros fatores que levaram à situação que testemunhamos hoje.
 

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Wagner Moura em cena de ''Tropa de Elite 2'', filme dirigido por José Padilha

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Atores no episódio "Fonte de Renda", que faz parte do filme "5X Favela - Agora por Nós Mesmos"

O documentário "Ônibus 174" (2002), outro marco do cinema brasileiro, transformou completamente a visão que se tinha dos efeitos colaterais da chamada "cidade partida" - a divisão entre a população que vive no morro e no asfalto. Ao contar a história do cerco ao coletivo sequestrado por um ex-menino de rua e interno da Febem, o filme revela também a precariedade em que trabalham os responsáveis pela segurança pública na cidade. O diretor José Padilha usou imagens da cobertura ao vivo da Globo, imagens captadas pela sua própria equipe e entrevistas com integrantes do Bope para evidenciar todo esse estado de coisas.

O filme de Padilha deu origem a outros dois trabalhos ficcionais que também reproduzem aspectos da trágica realidade do Rio. "Tropa de Elite" (2005) mostra, por meio do olhar de um comandante do Bope, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar, como uma corporação bem treinada, mas mal aparelhada e mal paga, se corrompe facilmente diante do dinheiro proporcionado pelo tráfico. "Tropa de Elite 2" (2010), a continuação dessa franquia, que vem batendo recordes de renda e público em sua carreira nos cinemas, amplia o olhar sobre esse problema, levando para a esfera do poder público parte do problema.

"Última Parada: 174", de Bruno Barreto, ficcionaliza a trajetória de Sandro Nascimento, o sequestrador do ônibus da linha 174, morto após uma desastrosa ação do Bope. Bruno Barreto dramatiza a questão, levando toda a discussão do plano estrutural para a questão humana. O filme, na verdade, centra foco na relação entre o rapaz e a mãe adotiva, que acreditava que ele fosse uma reencarnação do filho morto pelo tráfico.

Impulsionados por essa safra, outros filmes recentes, dentro e fora do Rio, atacam o problema da pobreza, da submissão ao tráfico e da segurança nas grandes cidades. Alguns deles: "Redentor" (2004), "Maré - Nossa História de Amor" (2008) e vários outros. Indiretamente, são filhotes dessa tendência o mineiro "Uma Onda No Ar" (2002) e "Salve Geral" (2009).

Historicamente

Foi Nelson Pereira dos Santos quem primeiro lançou um olhar mais detido e menos paternalista sobre a favela e as comunidades mais pobres do Rio, a partir de 1955, com "Rio 40 Graus" e Rio Zona Norte" - dois precursores do que viria a ser o Cinema Novo. Mais tarde, inspirados pelo mestre, um grupo de cineastas do qual faziam parte os estudantes de cinema Cacá Diegues e Leon Hirszman, entre outros, fizeram "5X Favela", refilmado recentemente com produção de Diegues com o subtítulo "Agora Por Nós Mesmos".

Historicamente, a favela sempre foi cenário recorrente na cinematografia brasileira, até mesmo quando visto por olhares estrangeiros. O melhor exemplo é "Orfeu Negro" (1959), produção franco-italiana-brasileira dirigida pelo francês Marcel Camus. Atualização do mito grego de Orfeu e Euridice, o filme ambienta na favela e durante o carnaval carioca a tragédia envolvendo os amantes. Não se trata, no entanto, de enxergar a favela como espaço de uma comunidade, com todos os seus problemas, mas de um cenário exótico onde se desenrola uma ação. Cacá Diegues refez o filme como "Orfeu" (1999), com Toni Garrido no papel que havia sido do ex-beque central Breno Mello.

"Assalto ao Trem Pagador" (1960), de Roberto Farias, foi um dos primeiros filmes de grande projeção e repercussão a colocar em evidência a partição da cidade e das classes sociais. O ponto de partida é justamente um notório assalto em que estavam envolvidos moradores de uma favela e gente que morava no asfalto. Quando um deles - o branco de olhos claros - começa a se esbaldar com o dinheiro fácil, acaba sendo repreendido pela parte do bando que mora na favela que haviam combinado de não gastarem enquanto a poeira não baixasse.



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