sexta-feira, 29 de maio de 2015

Após demissões, Enseada busca liberação de R$600 mi para retomar atividades

27/05/2015 - Jornal do Brasil

A crise que vem batendo à porta dos estaleiros brasileiros cresce a passos largos e os números negativos impactam não só às grandes empresas, mas em grande parte aos trabalhadores, que veem a cada dia seus empregos sendo levados para a China. Um dado claro desse declínio da indústria offshore é a situação do Estaleiro Enseada, na Bahia, onde 6.663 pessoas foram demitidas apenas entre novembro de 2014 e o mês passado. O agravamento da realidade na região, que recebeu uma injeção de investimentos nos últimos anos, fez com que as lideranças políticas do estado se reunissem no início da semana, na sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), em Salvador, para tentar salvar o empreendimento que sofre com a falta de recursos. Agora a empresa luta para receber uma linha de financiamento de R$ 600 milhões, já aprovada pelo Fundo de Marinha Mercante (FMM), mas que ainda não foi liberada pelas instituições repassadoras: Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

A questão dos recursos para o Enseada não se refere apenas ao acordo do estaleiro com o fundo, já que a situação da Sete Brasil tem sido um fator determinante para que os bancos passassem a dificultar o crédito. Desde que a empresa de sondas começou a aparecer na Operação Lava Jato, os recursos foram escasseando, e recentemente o conselho da Sete Brasil aprovou uma reestruturação da carteira de projetos, com a previsão de reduzir as encomendas. O número certo de sondas da nova cartela de negócios da companhia ainda não foi divulgado oficialmente pela empresa, mas a informação extraoficial é de que serão 16 unidades. O total anterior era de 29, sendo 23 do tipo navio-sonda e seis do tipo semissubmersível.

O estaleiro Enseada responde por uma parcela significativa dessa carteira, com seis navios-sonda: Ondina, Pituba, Boipeba, Interlagos, Itapema e Comandatuba. Apesar das especulações em torno do cancelamento de 13 unidades, o Diretor de Relações Institucionais e de Sustentabilidade da Enseada, Humberto Rangel, afirmou, em nota enviada ao Petronotícias, que desconhece “qualquer nota pública sobre o assunto” e diz que não recebeu “qualquer nota individualizada se referindo a modificações dos contratos assinados com a empresa”, reiterando que o valor global do contrato para fabricação das seis sondas de perfuração para exploração do pré?sal é de US$ 4,8 bilhões e está garantido.

Rangel contou que atualmente a Enseada Indústria Naval mantém 4.514 funcionários, sendo que entre novembro de 2014 e abril de 2015, os desligamentos na empresa chegaram ao número de 3.573 funcionários (Bahia e Rio de Janeiro), além de outros 3.090 trabalhadores terem sido demitidos do consórcio construtor responsável pelo erguimento do estaleiro em Maragojipe, na Bahia. De acordo com o executivo, as demissões são “fruto do processo de desaceleração em virtude do avanço físico da obra de implantação do estaleiro e da crise de liquidez que abateu a indústria naval brasileira”.

O fato é que a empresa, cujos sócios são as empreiteiras brasileiras Odebrecht, OAS e UTC, com 70%, e o grupo japonês Kawasaki, com 30%, está buscando toda a ajuda possível para conseguir retomar as atividades em sua unidade da Bahia, onde elas foram paralisadas em fevereiro. Para isso, conseguiu não apenas o apoio de políticos da região, que já sentem a economia local esfriar com os efeitos gerados pela situação do Enseada, mas também reuniu todas as partes envolvidas na questão, como sindicato e federação das indústrias locais.

O presidente da FIEB, Ricardo Alban, ressaltou a importância do empreendimento para  indústria da Bahia, onde a previsão de investimentos totais é de R$ 3,2 bilhões, sendo R$ 2,6 bilhões já realizados, além de destacar o papel do estaleiro em impulsionar o segmento metalmecânico baiano. No mesmo evento, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada e Montagem Industrial do Estado da Bahia (Sintepav-BA), Bebeto Galvão, foi mais um a defender o projeto: “Temos que olhar para o valor que esse estaleiro tem para a vida da Bahia. Não podemos permitir a interrupção daquela obra, nem das atividades industriais por tudo que isso representa”.

Nas contas da empresa, a massa salarial anualizada retirada do mercado com as demissões entre novembro de 2014 e março de 2015 foi de R$ 120 milhões, impactando Maragojipe, Salinas da Margarida e todo o Recôncavo. Além disso, a companhia calcula ter desembolsado mais de R$ 37 milhões em impostos para os municípios da região, R$ 22 milhões para o estado e outros R$ 62 milhões no âmbito federal, enquanto o histórico de pagamentos de encargos sociais (INSS e FGTS) representa mais R$ 205 milhões.

“Nossa chegada ao Recôncavo trouxe uma série de oportunidades para os moradores. Somos uma indústria fertilizadora e agora estamos enfrentando uma crise de liquidez no setor que nos afeta profundamente. Fizemos um investimento altíssimo em tecnologia, mandamos pessoas para serem treinadas no Japão no estaleiro da Kawasaki e isso tudo neste momento está paralisado”, lamentou o presidente da Enseada, Fernando Barbosa.

Independente dos posicionamentos, uma clara realidade é a situação crítica que afeta todos os elos da cadeia. Empresários, políticos e operários se reuniram, como em poucos momentos, em busca de uma mesma bandeira: a retomada das atividades. A conta para o problema ser resolvido é mais complexa do que a vontade desses três segmentos, mas o envio de projetos para a China, como vem sendo feito nos últimos meses, certamente não é a resposta.

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